CONTRIBUIÇÕES DO TRABALHO REICHIANO AO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO À CRIANÇA

Rosimery Lopes Castel

Abstract  Conteúdo  Bibliografia

Resumo:


São abordadas formas lúdicas de intervenção psicológica com a criança, onde a capacidade afetiva e de contato corporal do psicólogo é muito importante no que se refere ao atendimento à criança. Em relação aos pais, são abordados aspectos sobre sua participação no tratamento psicológico do filho e como lidar com a dinâmica familiar que apresenta a demanda de tratamento psicológico da criança.

Conteúdo

O objetivo desse artigo consiste em apresentar algumas contribuições do trabalho reichiano ao atendimento psicológico à criança.

Para compreensão do atendimento psicológico à criança, é fundamental conhecer: o objetivo, as características necessárias ao psicólogo, e os procedimentos técnicos utilizados com os pais e a criança.

O objetivo consiste em preservar a expressão emocional da criança e restabelecê-la, na medida que se encontre inibida. Essa concepção cumpre uma função de prevenir a neurose, já que a infância é uma etapa do desenvolvimento onde a criança se encontra sob a responsabilidade dos que cuidam dela, dependendo, dessa forma, da permissão e/ou aceitação desses para expressar seus impulsos, podendo, assim, ser impedida de expressá-los.

Wilhelm Reich coloca que o caráter forma-se como resultado prolongado do choque entre exigências pulsionais e o mundo exterior que frustra essas exigências. As condições que levam à resolução desse conflito são influenciadas pelas circunstâncias sociais predominantes, às quais a sexualidade infantil está sujeita. Ou seja, o caráter se forma como resultado do medo de castigo à expressão dos impulsos, e contém as proibições e normas dos pais e educadores, caracterizando-se por uma atitude cronificada - encouraçada. A couraça, termo criado por W. Reich, se forma no organismo às custas da repressão dos impulsos; surge como uma resposta temporária de autoproteção do organismo como um todo (físico e psíquico), dirigida ao meio ambiente, não se constituindo numa desvantagem a esse, na medida que for abandonada quando desaparecer a situação que a suscitou. Entretanto, o encouraçamento se dá, justamente, quando essa autoproteção se mantém mesmo quando não é mais necessária. O desenvolvimento do caráter, então, depende da intensidade da couraça nos vários níveis do organismo da pessoa, diferenciados, segundo W. Reich, por sete segmentos corporais: o ocular, o oral, o cervical, o torácico, o diafragmático, o abdominal e o pélvico. O encouraçamento pode manifestar-se desde a mais tenra idade, provocando uma diminuição da intensidade dos impulsos e redução da capacidade expressiva, estruturando, assim, o caráter de forma neurótica.

Sendo assim, o princípio do atendimento psicológico à criança é remover o encouraçamento promovendo o desenvolvimento do caráter de forma flexível, onde a criança possa abrir-se e fechar-se ao mundo exterior, lançando mão da couraça quando necessário, com menor grau possível de cronificação do caráter.

Nesse sentido, ao psicólogo são necessárias as seguintes características:

Conhecer as etapas do desenvolvimento biopsíquico da criança; ser afetuoso, no sentido de estar sensível às emoções expressas pela criança; estar receptivo a ela, pois nessa etapa do desenvolvimento, o encouraçamento não se encontra cristalizado, o que possibilita a manifestação clara, menos distorcida do que a criança sente; e se dispor a brincar, pois o atendimento à criança se dá na sobreposição de duas áreas do brincar: a da criança e a do psicólogo. Esse último, estando livre para ser brincalhão, facilita o brincar da criança. Para isso é necessário que apresente mobilidade caracterial e capacidade de contato corporal para acompanhar a movimentação da criança durante a brincadeira. É importante, também, perceber os segmentos encouraçados, o momento e a forma adequada de tocá-los, utilizando, às vezes, o próprio corpo para demonstrar à criança seu encouraçamento e ajudá-la a percebê-lo. Essa conjunção entre sentir e perceber a criança fornecem subsídios para a escolha da brincadeira que surge a partir da dinâmica relacional.

No tocante aos procedimentos técnicos, inicialmente, é fundamental delimitar para os pais o papel de psicólogo da criança, da seguinte maneira:

É importante cuidar para interpretar os pais, apenas no que diz respeito às representações que têm do filho, pois muitas vezes os pais trazem questões relacionadas a eles mesmos, no lugar de falarem dos problemas que apresentam com o filho.

Outro aspecto importante é evitar o aconselhamento aos pais a respeito de situações que emocionalmente não podem transformar, o que provocaria neles um sentimento de incapacidade. O aconselhamento pode ocorrer em momentos em que eles mesmos demandem essa ajuda. E é comum, também, isso ocorrer mediante a mudança no comportamento da criança ao longo do tratamento. Nesse caso, pode-se conscientizá-los das atitudes em questão e investigar com eles suas possibilidades de suprirem as necessidades da criança.

É importante que o psicólogo demarque seu lugar, mas que estabeleça uma aliança com os pais, no sentido de compreendê-los, já que eles se trazem, ao trazerem o filho para o tratamento.

Sendo assim, é importante que o tratamento da criança possa propiciar aos pais perceberem como e quais aspectos de sua própria personalidade muitas vezes são representados pelo sintoma da criança. Quando isso não ocorre, esse tratamento corre o risco de ser interrompido.

E, por fim, deve-se conscientizar os pais de que a ajuda ao tratamento do filho corresponde a levá-lo às sessões terapêuticas, se responsabilizarem pelo pagamento, e, também, se possível, buscarem atendimento psicológico. Basicamente porque o tratamento psicológico da criança toca em pontos de tensão, em conflitos emocionais dos pais.

Em se tratando da criança, os procedimentos técnicos são os seguintes:

O atendimento psicológico à criança consiste, primordialmente, em descobrir o meio de chegar à criança. Nesse caminho, se apresenta o brincar. No brincar, a criança expõe sua realidade subjetiva utilizando objetos da realidade externa. Por exemplo: aos seis meses, a criança brinca de se afastar e se aproximar dos objetos, como que ensaiando o afastamento da mãe; com um ano de idade, descobre em seus brinquedos que objetos ocos podem conter objetos, e que objetos penetrantes podem entrar, sair, unir, separar, o que simboliza a forma adulta de manifestação de amor: entrar em alguém, receber alguém dentro de si. Então, a criança experimenta colocar, por exemplo, lápis, colher dentro de potes; colocar o dedo na tomada, no ralo da banheira, etc. O brincar tem grande importância na infância, porque promove o desenvolvimento da criança, propiciando-lhe imaginar a resolução de problemas do seu cotidiano e, principalmente, criar a si mesma e o mundo brincando, realizando, através da imaginação, aquilo que quer.

A imaginação é para a criança sua primeira forma de emancipação no mundo. É o momento em que ela sai da posição passiva em relação aos pais e realiza seu próprio mundo. E, ao brincar, ela detém o domínio sobre a ação, no sentido em que a brincadeira e/ou o brinquedo adquirem o significado que ela lhes atribui.

No atendimento psicológico à criança, o psicólogo funciona como mediador desse interjogo entre a vida psíquica e a relação com os objetos da vida real, promovendo a possibilidade de a criança reviver e vivenciar seus medos, angústias... seus sentimentos. E, ao interagir com ela, através da brincadeira, participa de sua imaginação, onde o brinquedo tem importância por possibilitar que a criança, através dele, crie e determine suas ações. Mas devido ao brinquedo já trazer em si seu significado, ocupa, então, um papel coadjuvante no atendimento psicológico. Sendo introduzido, apenas, enquanto demanda dessa relação. O que é privilegiado é o campo do significado, o campo simbólico construído através da relação transferencial, como no início da vida, onde a criança passa do brincar com o próprio corpo e o corpo da mãe, para o brincar com outros objetos do mundo ao redor.

O brinquedo tem sua importância no desenvolvimento da criança. Através dele a criança cria e determina livremente suas próprias ações, sendo que essa liberdade é limitada, pois suas ações tornam-se subordinadas aos significados dos objetos sobre os quais ela age.

Por outro lado, nesse brincar com o psicólogo, a criança exerce um controle mágico sobre os objetos, chamado de onipotência dos processos psíquicos, que tem sua origem na relação de confiança do bebê com a mãe. O bebê, por exemplo, quando na fase simbiótica com a mãe, percebe os objetos fundidos a ele, tendo a mãe para intervir levando e trazendo o objeto, transformando, posteriormente, essa percepção diferenciada entre ele, a mãe e o objeto. A mãe, ao ser capaz de receber o que o bebê pode ser - ajudando-o a encontrar o objeto abandonado - e ser ela própria, esperando que o bebê a reencontre, permite a ele esse controle mágico sobre os objetos, o que contribui para constituir-se sujeito.

Assim é o papel do psicólogo, mediador desse interjogo entre a subjetividade e a relação simbólica com os objetos da vida real, através do brincar.

O brincar é uma atividade criativa da criança por promover a espontaneidade. E quando uma criança, ao chegar ao tratamento, não sabe brincar, esse é o primeiro aspecto a ser trabalhado, como expressão global de seu encouraçamento.

A seguir, abordarei algumas formas de se trabalhar o desencouraçamento na criança:

Por exemplo, quando a criança que apresenta dificuldade de elaborar a perda, por ter vivido situações de abandono nos primeiros meses de vida, e que expressa medo através de seus olhos assustados, pede-se a ela que imite a própria expressão junto com gritos, brincando de dar susto no pique-esconde. Gradativamente ela vai percebendo o medo e os motivos do mesmo, desencouraçando-se o segmento ocular ao recuperar sua capacidade de expressão do medo que estava cronificado.

É importante que o psicólogo seja habilidoso na criação da brincadeira, de forma a adequá-la ao objetivo daquele atendimento psicológico em particular.

Ao se trabalhar a expressão da raiva, por exemplo, pode-se: brincar de fazer caretas ou de jogar almofadas, mostrando à criança como manifesta e inibe sua expressão da raiva, associando aos seus motivos. E sempre focando, inicialmente, as expressões de raiva que se apresentem na superfície da conduta da criança. Ajudando-a a perceber, desse modo, que o desprezo e o sadismo, são mais comuns de serem demonstrados na vida social do que a agressividade espontânea. Essa diferenciação deve ser clarificada, ajudando-a a restabelecer sua capacidade agressiva enquanto defesa instintiva, e também esclarecendo sobre as possíveis dificuldades de sua agressividade ser aceita socialmente. Dessa maneira, previne-se, também, a reincidência do encouraçamento, e como a repressão contínua dos impulsos encouraça, é importante que a criança aprenda a reconhecer as relações afetivas e o meio possível para expressar-se e ser recebida, aprendendo, nas situações em que necessite se defender, a lançar mão de sua couraça.

Outra forma de intervir é massagear pontos de tensão muscular, que pode ser feito de forma lúdica. Brincando, por exemplo, de fazer "massa de pizza". Funciona como carícias para crianças que apresentam medo de serem tocadas, desfazendo tensões e possibilitando o contato afetivo.

Outra forma é o toque através da brincadeira de fazer cócegas; também contribui para o desencouraçamento, pois pode ajudar a desorganizar o controle das emoções, provocando risos, soltando a respiração e afrouxando, principalmente, os segmentos oral, torácico e diafragmático.

As intervenções seguem a direção das emoções desde a superfície do encouraçamento a níveis mais profundos. Analisando as formas de expressão neurótica do caráter. Seja através de jogos, desenhos ou de contos de fada criados juntos à imaginação da criança. Por exemplo, se ela traz uma boneca para a sessão e mostra as posições em que é capaz de colocá-la como forma de retratar que se sente manipulada, pode-se inventar uma historinha onde fale do sofrimento das crianças que são tratadas como se fossem bonecas, sem sentimento e vontade própria. Essa abordagem estimula a criança a perceber seus sentimentos, e promove sua manifestação.

À medida que se transpõem as defesas a expressar as emoções, amplia-se a capacidade de expressão e de sensações de prazer que surgem por decorrência desse interjogo entre aprender a vivenciá-lo durante as sessões e experimentá-lo em outros espaços e relações de seu mundo. Quanto mais ela se apropriar da capacidade de expressar seus sentimentos, mais confiante a criança ficará em si mesma e, conseqüentemente, diante das situações da vida. Exceto nos casos em que os pais não suportarem seu amadurecimento emocional.

Enfim, basicamente, o brincar é um recurso de interação com a criança que faz parte de seu próprio desenvolvimento psicológico, pois é brincando que ela se cria e cria seu mundo.

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